quinta-feira, julho 17, 2008


Um grão de poeira é um ser pérfido e jamais cairá onde supomos que caia. Sobre folhas verdes restantes do outono, raízes semi-abertas sobre o solo, pequenas rochas ou a escuridão negra de qualquer outro lugar onde não supomos que caia. O vento ajuda, desvia-o de um lado a outro e a lugar nenhum, percorre os mapas inexplicáveis do ar e o atira sobre a vigésima terceira folha que brotou na primavera passada e foi a primeira a cair no outono, por ter nascido fraca como um temporão.


Se chove não há poeira, mas há barro e enchurradas. Ouviram dizer da morte do velho que construiu sua casa de barro e foi soterrado pela parede diluída pela chuva antes que o sol a secasse. Sepultado pela terra lá esteve até o novo verão em que a enchurrada descobriu seus ossos brancos de sob o barro. Os homens acreditavam que cansado da pobreza havia destruído a casa e saído pelas infinitudes do mato. Diga-se que um grão de pó é traiçoeiro, mesmo quando hiberna em seu estado de terra molhada.


No pequeno morro onde puseram parte de uma cidade a poeira celebra seus atos. Homens e mulheres polvilhados de pó divergem nos seus rituais de um canto a outro e benzem-se na água de seus chuveiros. Suportarão o aço reluzente em suas almas assim como percorrem o asfalto? Deterão a podridão que avança sob os bueiros e cresce pelos ralos e suspira em seus pés? Enquanto os homens permanecem indecisos quanto às micro-partículas e o ser, após tantos dias sem chuva, lá vem outro grão de poeira.

5 comentários:

Anônimo disse...

Porra Valdinéli!! Isso é muito bom! Caramba, eu estava certo em confiar a você a fortna de Viriato. Leia o que vc escreveu porra! Essa é sua sina.

Otávio disse...

me lembrou aquela história q o machado conta em q a dona da casa chora sentada ao lado da casa incendiando em chamas e alguém chega e lhe pergunta se a casa é dela e, diante da resposta afirmativa, o sujeito lhe pede licença se pode acender o seu cigarro ali

Pâmela Rodrigues disse...

Volta Val!

Tom disse...

Ei, cara, cadê os novos escritos?
O blog precisa de você!!!
Abração!

Anônimo disse...

Mais uma na torcida pela tua volta!