domingo, abril 23, 2006


O café estava com um doce bom e prenunciava boas novas. Coisas que acontecem sem a gente perceber: a moça na entrada da faculdade o paquerava, mas só a viu quando ela já saía.

“E por que não nessa altura do campeonato da vida não me dar o direito de uma loucurazinha? Houve dias em que me perguntava as causas dos erros da vida para com este que vos fala... Por agora me preocupo em não me preocupar. Quem me dera ser sem apegos a músicas e fotos na memória, olhos claros e versos de bobo-da-côrte...”

Traçou mapas na mente, descarregou um revólver na letargia e deixou-se a si mesmo falando sozinho enquanto explicava os porquês de ser infeliz... um dia quem sabe voltará com novas boas-novas e um vinho nada camusiano embaixo do braço: evoé!... easily... e-vo--é...

quinta-feira, abril 06, 2006

A incrível noite do Helloween!

Quem poderia suspeitar? Helloween era a banda alemã de metal melódico mais dependente em heideggeraína que já visitou esses cantos subtropicais quase temperados do planeta!... Um pouco antes do show numa esquina escura, porém iluminada, de Ctba Stiepánovitch Lemonovski Cruz deixava seu carro sofrer de inanição de gasolina. Um mentecapto sujo realmente! No qual nunca houve neurônios na mente, senão coliformes fecais. Quem empurraria o carro numa avenida daquelas senão tivesse a companhia do garboso Valdinéli? Quem empurraria o carro naquela noite assim tão escura se não tivesse a companhia da charmosa e elegante Deborah? Certamente não seria Stiepán... no porta-malas do carro muita heideggeraína e muita falta de noção na cabeça de Stiepán. Deborah era uma informante da máfia berlinense que é a produtora exclusiva de heideggeraína para o mundo. Viera ao Brasil para se imiscuir aos expúrios integrantes da Sociedade para obter dados de como estavam os negócios nessas terras em tudo dá ao deus-dará. Mas Ilenidlavski soubera disso e disfarçara-se de Valdinéli naquela noite tenebrosa. Disfarce perfeito, ninguém diria que por trás daquele rapaz deveras simpático e gentlemaníaco havia um sanguinário criminoso.
No show tudo correu bem, poucos assassinatos. Ilenidlavski se contera, Stiepán também, mas, ó deus!, Deborah não! Socos, pontapés, tiros e navalhadas a cada elogio ao ouvido. Quando metade da platéia já havia apanhado Deborah começou a se conter.
Stiepán: __ Será que ela precisa de ajuda?
Valdinéli, ou Ilenidlavski: __ Perto dela nós é que precisamos?
Estava tudo bem, mas Ilenidlavski já embasbacara-se pela jovem berlinense. O que seria da nossa história se não fosse o porém de que Deborah ignorara os olhares de Ilenidlavski, com olhos de Valdinéli, pela possiblidade de falar com a banda ao fim do show? Nada. Mas o que aconteceu daí em diante foi uma cena jamais vista. Ilenidlavski chorando copiosas lágrimas trancado em um Peugeot 206 sob os auspícios gargalhantes de Stiepán. Essa não é uma história de aventuras como as outras sobre a Sociedade, meus amigos. Essa é uma história triste como pôr-de-sol triste. Nada mais restava aos nossos protagonistas senão o Largo da Ordem. Um melancólico, outro dando gargalhadas a perder de vista e uma terceira frustrada sem ter falado com a banda. Meus amigos aqui a história acaba. A não ser pela bandeira do Brasil suja de mijo. A não ser pelo Arlindo contando a sua história de vida. A não ser pela incrível petulância da noite que insistia em transformar-se em dia. A não ser pela memória que me falha e não me diz nada do que aconteceu depois. E voltaram todos para a casa cantarolando: “Fifteen men in the Dead Man’s Chest! Hohoho... and a bottle of rum”...

domingo, março 05, 2006

ontologia descritiva de si

sou o som das buzinas, a negação das buzinas no silêncio por trás do tumulto
a metropóle que nasce tão morta na marquise
a complacência dos psicopatas
a psicopatia delicada de analisar a alma humana
a demência bem velada de qualificar e quantificar em classes as personalidades
sou o que não pude ser, sou um além de si muito aquém de si mesmo
um copo que transborda ondas e mar tempestuoso
um cálice de vinho fino despejado ao ralo da pia
o despejo do vinho fino ao ralo da pia
o ralo da pia em que despejam o vinho fino

mas não o vinho fino despejado ao ralo da pia
o que não sou, mas me pretendo a ser
o que devo ser sem que eu seja
o vir-a-ser condenado a não-ser
o não-ser que é ilógico na sua única lógica
a recusa da lógica na pretensão de raciocinar
o raciocínio que sente antes de pensar
o grito num túnel soterrado
a melodia além da orquestra que ressoa
nos ouvidos do mendigo em frente ao teatro


sou o que fui enquanto queria ser e passei a vida querendo...

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

24/02/2005

...Duas noites de insônia.

...Minha razão está calada, apenas minha mente pulsa. Louca, como um grito num túnel escuro! A insônia é a minha maneira de prolongar a noite, multiplicá-la por si mesmo, até que o dia espoca nos olhos cansados...

domingo, fevereiro 12, 2006

quem tem um coração que cuide dele

quem tem um coração que cuide dele (isso mesmo meus amigos, meus pobres amigos. se é que posso lhes chamar de amigos, me ignorem se for o caso)!

houve um tempo em que achei que o coração devia ficar na mente, lugar seguro para ser policiado e que se impedisse mais romantismos bobos. esse tempo passou, hoje o coração deve ser é estirpado. isso mesmo sejamos todos cruéis com os sentimentos alheios, façamos de nossos companheiros de humanidade apenas meios para atingirmos nossas metas. fim em si mesmo? kant era um romântico, deixe esse kantismo pra lá...

os cardiologistas já me desenganaram: "peça de museu esse seu coração meu rapaz, tecnologia do séc XVIII. a receita é ler Werther!". cardiologistas, sempre querendo ver seus pacientes deitados numa cama de UTI ao som de um apito longo e intermitente. "menos um!..." sejamos cruéis primeiro com os cardiologistas, depois com os anjos da guarda. maníacos estúpidos, bêbados todos! onde eles estavam qdo eu fiz as minhas cagadas do coração? nalgum boteco celeste, bebendo e cantando a garçonete que devia ser uma querubina safada também. antes pensava que meu anjo da guarda tivesse se suicidado, imaginando-se um fracassado comigo. tinha pena dele. depois tive certeza:'foi o Murphy que matou meu pobre anjo da guarda". mas não, bêbado safado, displicente! não-cumpridor de seus deveres.

ajudar velhinhas a atravessar a rua?... desculpem-me velhinhas, tenho mais o que fazer, ocupado demais em atravessar-me a mim mesmo. meu coração já secou, as amadas furtivas, as amadas de flerte, as eternas efêmeras que nunca ficam, essas não cabem mais por aqui nessa terra de miocárdios, pericárdios, válvulas e tumores de amores passados. quem tem um coração que cuide dele. o meu como não tem solução (não entrego à ciência, sou pudico e não creio nessa religião politeísta do século XX) vai ser aposentado, trabalhar sem obter resultados não adianta, melhor parar e descansar. colocar o pobre numa cadeira de balanço, sob um xale xadrez, com uma vista bonita e sobreviver nas ruas infinitas.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

esses rapazes de hoje em dia, essa corja de rapazes que só namoram e nada fazem. deviam ir todos ao quartel, serem disciplinados, por farda e pegar em fuzil, defender a pátria! ah no meu tempo! esses jovens que ficam pelos cantos e nas ruas e ficam escrevendo em blogs como se fosse algo de proveitoso a uma vida cívica e como pode se tornar um bom ai-de-família um rapaz assim? ah nesses dias pós-modernos esses rapaazes pós-modernos, essas moças pós-modernas! na minha época não era assim! a moral amoral dessa juventude é uma quimera, o que diria um Rui Barbosa disso? fica a pergunta o que diria o Rui Barbosa disso?! meu deus, Deus meu! ah no meu tempo!... já poríamos isso na linha! moça vai pra cozinha ser prendada, rapaz vai estudar e ser engenheiro... música? o hino nacional tá bom, e os cânticos litúrgicos no máximo. meu deus! deus meu! e o que sobra disso é a pergunta: o que raios diria Rui Barbosa disso!?

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

facticidade e contingência


Eu queria afundar as embarcações, ser o rochedo em que se chocam, eu queria saciar os pesadelos levando-os ao dia claro e ao espaço comum do dia.

sábado, janeiro 21, 2006

Dúvidas éticas numa sexta-feira à noite

__Tudo bem, sexta-feira à noite. O que vamos fazer? Bem se você quiser há um puteiro no fim da rua. Mas eu não vou colocar grana numa fodida. Uma noite com uma mulher valeria garrafas e garrafas de cerveja? Valeria? Você pode dizer depende da cerveja, é verdade. Mas e um bom litro de whisky, valeria? Tá, whisky dá dor de cabeça, eu sei. Mulher no outro dia some. É eu sei, mas e umas garrafas de rum, litros de caipirinha, tubões e tubões, compartilhar com meus amigos a grande celebração da vida? Valeria? É, é verdade, amigos às vezes são falsos, e eu sempre me fodo com eles. E ficar bêbado na rua dá sempre em alguma merda. Eu sei. Mas eu venderia todo esse prazer social por prazer com uma pessoa só? Tá certo é uma “senhora” de uma pessoa! E não é qualquer prazer, enfim... Mas meus hormônios valem, mais então!? Ora bolas... eu ainda estou no controle, certo? Eu mando em meus hormônios! Não uma mulher com aqueles corpetes, minissaias e coxas ao léu, decotes furiosos sobre minha calma, andarzinho lascivo, curvas e curvas, olhinho piscando de lado, meio assim, charmosinho... e... e... aquelas voluptuosidades safadas, e a imaginação voando, voando, e a expectativa do caos em flor da explosão de nossos corpos... Ai! Ai! Nem me fale! Deixe-me ver quanta grana tenho... Ai... vamos pro puteiro então, você me convenceu.
__Ué... mas eu nem falei nada!

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Declaração de veemência e suavidade

"...como um fio de algodão
acalmando um furacão."M.I.

Não há vida fora de mim
Não há morte fora da mim
Eterna dialética de existir-nãoexistir

Quero uma amante louca
De mil tornados sobre si
Eu quero muito mais que viver
Eu quero girar como girassóis

Mas se tiver um bom descanso
Ouvindo as sinfonias das chuvinhas safadas
Destruindo a monotonia com o silêncio sonoro das suas gotas

Mas os tanques voltarão
Quando voltarem estarei preparado para a batalha!
Que venham AK’s e .40’s!

Farei qualquer dia
Uma ode aos b52’s,
Uma elegia às baterias antiaéreas,
Uma saudação aos mariners,
Mandarei um beijo cortês aos cavaleiros da morte,
E seus engenhos maravilhosos de destruição em massa,
Cartinhas carinhosas aos generais,
Lustrarei as estrelinhas deles com sangue dos inocentes,
As botas com a saliva que já escorre
das bocarras insaciáveis deles.

mas quero girar e girar agora
como um girassol em fúria
como um planeta em órbita
ou em rota de colisão

Eu quero encontrar as supernovas
Eu quero um bigbang pra mim agora

Eu quero ver a vida por aí
Em qualquer instante jogado
Mas não há vida fora de mim
Não há morte fora da mim
Eterna dialética de existir-nãoexistir

sexta-feira, janeiro 13, 2006

(...)

Quem o visse andando pelas ruas, vivendo anonimamente, não saberia que ele havia nascido para se foder. Coitado, diriam uns se o soubessem. Mas a cena é tragicômica demais para sentir pena. Algo entre Chaplin e Lupicínio Rodrigues. O destino era um safado. Um safado sarcástico que gostava de lhe colocar cascas de banana sob os pés. O cupido um zarolho. Ah! era um zarolho o cupido, flechando sempre o coração certo na hora errada. Mas é que Murphy havia matado a tiros o anjo-da-guarda do nosso protagonsista.

“Puxa vida!... Que coisa!...”, exclama a platéia sem saber que o espetáculo já acabara sem aviso de “the end”.